sábado, 5 de janeiro de 2008

TRILOGIA DOS PERDIDOS

– As parábolas de Lucas 15



Lá está Jesus, publicanos e pecadores se aproximam para ouvi-Lo, enquanto isso os fariseus e mestres da Lei censuram-no por aceitar a companhia dos pecadores e até comer com eles! È um público bem diversificado esse que ouve a Jesus, de um lado os ladrões publicanos um tipo bem familiar pra nós, eles são desses que “compram e que vendem a moral da nação”, junto deles os ‘pecadores’, por isso pode-se traduzir mulheres de comportamento duvidoso, homens de índole difícil, estrangeiros, e toda a ralé que pudermos imaginar. Do outro lado temos os fariseus, peritos da tradição e religião, e os mestres da lei, honrados rabis reputações acima de qualquer suspeita.
O cenário está armado, dois grupos de pessoas tão antagônicos, público ideal para as histórias que o Mestre está para contar. Três histórias são contadas em tom de pergunta, tratam-se de três parábolas, se fosse Paulo ali e não Jesus, provavelmente haveria um discurso direto, seguido de uma cadência de raciocínio no estilo helênico, mas o mestre opta pelas parábolas, e deixa que a verdade penetre nas mentes dos ouvintes com bastante sutileza através de simples histórias , mas tão eficaz e potente como uma goteira em suas cabeças. A ovelha perdida, A moeda perdida e O filho perdido.
Jesus começa a história em tom de pergunta: Qual de vcs....? não esqueçamos que estão ali dois extremos de moral. As três histórias contam 3 absurdos, na primeira um pastor deixa 99 ovelhas ao léu e sai em busca de uma perdida, a matemática é ilógica, troca-se 99 por 1, na segunda uma mulher, provavelmente a noite o que justifica a necessidade de ascender a candeia, procura atentamente uma única moeda, varre a casa na busca até encontrá-la, ela volta suas atenções para 1 moeda ao invés das outras 9 preciosas dracmas que tem... Jesus inicia as duas primeiras histórias com a pergunta Quem de vcs faria isso? se pudessem responder os ouvintes com certeza diriam: - nenhum de nós! Afinal não é costume de ninguém dar tanto valor à minoria em relação a maioria, se compararmos friamente o que é 1 ovelha perto de 99, ou 1 moeda perto de 9 ?, No final de cada história Jesus diz: pois é ! ... mas no céu é exatamente assim! E se depois dessas duas histórias ainda houvessem dúvidas, O Mestre cumprindo a tradição do rabis arremata com a terceira e última história que vai aniquilar a inicial crítica dos fariseus . Na história do Filho perdido, não um absurdo, mais uma série deles acontecem , para o escândalo da cultura judaica é dado a um filho mais novo mais valor que a um filho mais velho, o filho mais novo esbanja a herança do pai e tem a coragem de voltar, e pior ao voltar o pai lhe dá honras e o recebe descomposto. O filho mais velho ao ver o absurdo diante de seus olhos reclama: Olha! Tenho trabalhado como um escravo e nunca recebi esse tratamento!, mas quem disse que o Pai queria um escravo? o filho mais novo ao retornar já havia dito que queria ser tratado como tal, e o que recebeu foi tratamento de filho, estranho não! Que percepção a do pai! Ele viu claramente quem tinha humildade de servo e deu a este honra de filho, e viu quem fingia ser servo com fins de ser honrado e ambição de mérito e a este não deu o mesmo privilégio. A história do Filho pródigo explica a atitude de Jesus , justifica porque Ele anda com a escória da sociedade, porque comia com pessoas de reputação duvidosa, justifica porque Deus veio a nós, porque correu em nossa direção, como descreve Kierkgaard:
“... Quando se trata de um pecador Deus não fica simplesmente parado , com os braços abertos e dizendo:’Venha cá’,não, Ele fica ali e espera, como o pai do filho pródigo esperou;ou melhor, Ele não fica parado esperando ,sai procurando, como o pastor procurou a ovelha perdida, como a mulher procurou a moeda perdida. Ele vai – não! Ele foi! , infinitamente mais longe que qualquer pastor ou qualquer mulher. Ele seguiu calmamente o longo e infinito caminho de ser Deus para se tornar homem, e desse modo foi procurar os pecadores...”

Parece que como disse Jesus “Os publicanos e as prostitutas estão entrando antes
de vocês ( líderes religiosos) no Reino de Deus. Mt 21.31” . Quem reconhece de fato que não merece é que é tratado como filho.
O que fica mais marcante nas histórias é a atitude do pastor, da mulher e do pai, eles fizeram algo estranho para nós, eles valorizaram o que não tinha valor, fizeram o que nenhum de nós faria. Ainda bem que Deus é diferente!. Para os fariseus e mestres da lei as parábolas devem ter sido decepcionantes, afinal, Deus não é enganado por falsas intenções piedosas, para os publicanos e pecadores as parábolas funcionaram como um conforto, Deus está entre eles para achar o perdido.
A narrativa bíblica não relata a reação dos espectadores, Lucas muda o tom das parábolas para outro cenário no capítulo 16... mas podemos imaginar o que se passava nas mentes dos ouvintes, o mesmo que se passa na nossa quando lemos a trilogia dos perdidos, se somos do tipo que se auto justifica e esconde-se atrás de títulos religiosos, se achamos que merecemos as bênçãos de Deus, ou sua atenção por causa da nossa ‘piedade’, se torcemos o nariz diante dos ‘pecadores’ e os privamos da presença de Jesus, somos como os fariseus e mestres da lei, somos como as 99 ovelhas que não precisam de cuidado e colo, somos como as 9 moedas , ou como o filho mais velho que até trabalha como servo mais com vistas em recompensas, a esses o Evangelho não faz sentido, afinal as Boas Novas são que ‘ há esperança para o perdido!’ se não estamos perdidos o suficiente, não há Boas Novas para nós... porém se somos pecadores, perdidos, arrependidos, há Boas Novas, a de que Deus sai em busca de nós como o pastor da Ovelha, que Ele nos busca com afinco como a mulher à moeda, que Ele corre em nossa direção, e festeja nosso retorno como o Pai do Filho perdido.


Rosilene Gomes Ribeiro